
Prometeu ficar. Não uma promessa saída da sua boca, mas uma certeza produzida pelo seu carácter. Prometeu ficar para os seus feitos não serem esquecidos, desvalorizados. Prometeu que ela não esqueceria o seu nome e que o diria em palavras abafadas na mente tão frequentemente como respiraria ou como suspiraria. Como acreditou no poder dessa promessa? Como viveu na sua sombra? Como temeu cada vez que a evocava? Como se alguma vez ele conseguisse fazer valer as suas promessas, ainda que sendo do seu interesse, ainda que fizessem parte da sua vingança, dos planos que tinha para ela.
Planeava ser a sua eterna sombra, o seu eterno medo, a sua maldição e simultaneamente a sua esperança. Planeava ser tudo na sua vida, levando tudo o resto.
Sempre foi mentiroso e nunca a consciencialização dessa sua falsidade lhe foi tão benéfica, tão aprazível, tão deliciosa. Nunca uma mentira havia sido tão desejada...
Prometeu voltar. Não uma promessa que lhe tivesse provocado o desprazer de a ouvir sair dos seus lábios frios, mas desta vez provocada pela percepção da falha dos seus planos, tão minuciosamente arquitectados, com o único fim de a fragilizar, de a impedir de seguir em frente. Mas ela imediatamente se apercebeu que o desejo dele era a sua mais directa ameaça. Pretendia fragilizá-la, mas facilmente esquecia a fragilidade das suas promessas. Sempre foi (estupidamente) sobrevalorizado...
Que promessa se segue? Está pronta para a sua chegada, disso não duvida!
E a consciencialização da sua falsidade e do prazer que esta lhe proporcionava, de onde veio? Com quem veio?
Todos lhe diziam que alguém iria intersectar o caminho que percorria há já algum tempo para atingir essa percepção, essa verdade, essa luz...mas negava constantemente essa ajuda.
Ajuda? (se conseguisse ver a sua expressão certamente encontraria os seus doces lábios a desenharem aquele sorriso, tão inocente, tão puro...).
Sonhou-o e ele apareceu. Com a voz entrecortada pelo suave pânico agradeceu-lhe. Encontrou-o, mas teme que esse prazer dure pouco e que no mesmo momento passe do carinho ao desamparo, da calma ao desassossego, da plenitude ao vazio, da luz à escuridão...
"Antes de saber que era mau comer o fruto proibido, o homem teve de perceber o poder do seu aroma, sofrer o desejo, saborear o prazer da dentada, estremecer com o som da casca arrancada, receber o pedaço dentro da boca, conhecer as suas redondezas, os seus sucos, a suave textura...".
There is something I see in you and it might kill me...